Revista Dirt Action – Entrevista Reinaldo Varela

19 de junho de 2020 - por: MASTER

REINALDO VARELA – CAMPEÃO DA EXPERIÊNCIA.
Fonte: Revista Dirt Action – Ed. JUN/2020.

Varela e Gugelmin no Rally Dakar_2020. Crédito: Divulgação Can-Am

O paulista Reinaldo Varela é um dos fenômenos do esporte a motor brasileiro. Aos 60 anos de idade, somente na temporada 2019 ele disputou o Dakar, o Sertões e o Mundial de Rally Cross Country, sempre como favorito. Ao lado do navegador catarinense Gustavo Gugelmin, Varela enfrentou os principais nomes da categoria UTV mundial, figurando atualmente como o melhor piloto das últimas três temporadas do Dakar, além de ter conquistado o tricampeonato mundial em outubro passado. Não foi à toa que os leitores da Dirt Action o elegeram como vencedor do prêmio Guidão de Ouro. Nesta entrevista, Varela, que tem a incrível marca de 36 títulos nacionais e internacionais, falou com exclusividade de suas façanhas: “Esse negócio de ser favorito nunca me fez a cabeça. Se eu sou ou não sou, nunca fez diferença alguma quando entro no carro de corrida”.

Dirt Action – No ano passado, você disputou o Dakar, o Sertões e o Mundial de Rally Cross Country. Como consegue fazer tudo isso de forma competitiva partindo do Brasil, que está afastado do centro mundial do rali?
R. VARELA – Hoje o mundo dos ralis é muito profissional. No nível dessas competições que você mencionou há grandes equipes que precisam ter sob contrato pilotos e navegadores que consigam entregar os resultados esperados pelos patrocinadores. Então, realmente não importa de qual país você é. O que interessa é o que sabe fazer e como vai se integrar no time, pois nos ralis o espírito de equipe é um dos fatores decisivos. Nesse aspecto, eu e o meu navegador, Gustavo Gugelmin, temos encontrado bons parceiros. No aspecto físico, costumo dizer que atualmente não existem distâncias intransponíveis. Atualmente, no mesmo tempo que vou de carro de São Paulo para Ribeirão Preto, no interior do estado, eu praticamente chego na Europa de avião. Ou mais ou menos isso. As distâncias hoje são relativas.

DA – Qual é a diferença do Reinaldo de hoje, aos 60 anos, do Reinaldo dos anos 90, que já conquistava títulos importantes?
RV – Depois que senta em um carro de rali, você não pensa em idade. Na minha idade você acaba, sim, usufruindo do aprendizado de diversos anos, que é uma vantagem. Mas perde em outros aspectos, que os mais jovens têm a seu favor. O importante é você saber jogar com isso, considerando que os ralis cross country são de longa duração. Então, há espaço para estratégia e inteligência no uso dos recursos de cada um. Mas não sinto que a minha idade faz diferença, pelo menos ainda não, pois não me afeta em nada quando estou ao volante, competindo em qualquer uma dessas provas difíceis. Até hoje tem sido assim. É importante não levar certas coisas para dentro do carro ou da sua mente. Você tem que entrar na competição pensando em somente fazer o melhor que puder. E esse melhor pode até superar o que você já fez há muitos anos. Acho que é isso o que tem acontecido comigo.

DA – Você tem 36 títulos nacionais e internacionais. Além do talento, qual é o segredo para tanto sucesso?
RV – Os títulos são resultados de um processo que você vai construindo para conseguir ter sucesso no esporte. Você não vence um Sertões de repente, ou melhor dizendo, naquela edição específica do Sertões. Na verdade, você vem construindo essa vitória ao longo de um período de aprendizado e aperfeiçoamento. Vencer um campeonato também é assim. Você tem que ter um pouco mais de paciência em algumas provas para poder usufruir melhor dos seus recursos em outras. E, assim, brigar pelo título. Eu sempre me preocupei muito com o título – e não especialmente com vitórias em corridas. Dessa forma você trabalha melhor a parte estratégica e evita situações que o tirariam de determinadas provas. Ou seja, você administra melhor os riscos. Muitas vezes acontece algum problema mecânico, quebra ou batida e você sabe que não tem mais chance de vencer aquela corrida. Então você precisa começar a administrar a situação em favor do campeonato. O ideal é entender que está disputando um campeonato, e não somente uma única corrida. A vitória em uma prova é legal, mas some na memória, o pessoal esquece. Já o campeonato fica com você, é uma lembrança permanente de toda a comunidade do rali.

DA – Com 60 anos, você foi favorito no Dakar, no Sertões e venceu seu terceiro Mundial em 2019, uma façanha inédita. O que faz para se manter em forma e encarar os melhores do mundo em um esporte tão exigente no aspecto físico?
RV – Esse negócio de ser favorito nunca me fez a cabeça. Se eu sou ou não sou, nunca fez diferença alguma quando entro em uma corrida. Meu foco é sempre fazer o melhor que a nossa equipe consegue. Dito isso, é claro que um piloto que quer ser competente precisa ter disciplina, se manter em forma e se dedicar. Cuidar da mente e do corpo, estar bem consigo mesmo. Não adianta fazer muito exercício, preparar o corpo e esquecer da mente. Aí qualquer probleminha que tiver em casa ou no trabalho vai te afetar. Fisicamente, você pode até ser um robô, só que mentalmente você pode estar despreparado. É um conjunto que deve ser sempre analisado por inteiro: físico, mente, equipe, navegador, cada mecânico… É a soma de tudo isso que te faz aguentar qualquer desafio.

DA – Com Dakar, Sertões e Mundial, sua temporada 2019 foi provavelmente a mais radical realizada por um piloto brasileiro no ano. Vai repetir o roteiro em 2020? O que te atrai em cada uma dessas corridas?
RV – Ter feito essas três competições foi muito bom para mim como profissional e torço para que outros brasileiros também sigam esse caminho. Devo destacar também o trabalho e a qualidade do meu navegador. Gustavo Gugelmin é um verdadeiro craque e tem feito muita diferença no nosso desempenho. Voltando às competições, elas possuem roteiros completamente diferentes. O Dakar, que é uma corrida muito completa, técnica e também longa, exige muito da dupla em todos os níveis. A preparação para disputar o Dakar por si só já é um desafio à parte. O Sertões é uma corrida igualmente disputada e também é muito veloz. Basicamente, é uma prova que do começo ao fim você tem que andar forte, pois ela geralmente tem muitos competidores de nível alto, que focam tudo o que têm para ganhar. É o ponto alto deles aqui no Brasil e, então, eles vão para o tudo ou nada. Se você bobear, fica para trás. Já no Mundial há dois tipos de competidores. O primeiro está nas equipes locais dos países onde a prova será realizada. Eles estão ali para tentar vencer as equipes do Mundial. E você tem os times do Mundial mesmo, que fazem o campeonato inteiro. Mas aqui o ritmo de prova é um pouco diferente porque as etapas diárias são muito longas. Então, se você quebra em uma delas, é bem difícil voltar ao grupo dos líderes. Os terrenos também são muito variados, indo do calor e areia do Saara à neve da Rússia. É uma complicação, e até os trechos de deslocamento podem ser bons desafios. Sim, 2019 foi um ano espetacular pra gente. E a nossa meta é repetir essas três competições em 2020.

DA – Você é um dos pilotos que migrou de outra categoria para os UTVs. No seu caso, veio dos carros. Por que fez essa opção?
RV – Eu saí dos carros e logo na primeira vez que pilotei um UTV da Can-Am, em 2016, me apaixonei. É muito gostoso de andar. É um carro macio, ágil, muito bom de pilotar. Eu até resisti, queria ficar nos carros, onde fiz a maior parte da minha carreira. Mas logo de cara eu praticamente “vesti” o Can-Am. Acho que foi a decisão certa. No UTV você tem uma experiência sensorial muito mais ativa, pois vento, poeira, chuva, tudo isso vai direto em cima de você porque o cockpit é aberto. Isso faz muita diferença para quem busca sensações fortes na competição. Não penso em voltar para os carros.

DA – O que aconselha para quem quer seguir seus passos?
RV – Pra quem quer começar no rali, meu primeiro conselho é: faça tudo com responsabilidade e segurança. Eu já tive vários acidentes e se não fosse muito cuidadoso com a segurança, acho que minha carreira teria acabado faz tempo. Tem que usar equipamentos homologados e não brincar com isso. Segundo conselho: procure orientação profissional de boas equipes. Informe-se. Isso vai não apenas vai te ajudar a aprender e ser competitivo, como também a gastar menos ou gastar de forma mais racional. Terceiro conselho: automobilismo é um esporte ingrato. Só tem um vencedor. Há muito mais momentos difíceis do que de vitórias. Então, comemore cada pequena conquista. Dê valor a tudo que conseguir. Eu fiz isso e não me arrependo. Muito pelo contrário.

DA – O que significa para você vencer o Guidão de Ouro, uma votação feita diretamente pelos fãs do esporte?
RV – Fiquei contente de ter participado. Só a minha inclusão entre os candidatos já foi muito legal. É um prêmio que eu não tinha conquistado ainda e foi muito significativo. Gostaria de parabenizar os organizadores por essa iniciativa. É importante para um competidor profissional ver seu trabalho reconhecido. Este troféu vai entrar na minha estante como um dos mais importantes da minha carreira. Estou muito feliz. O mais legal é ser reconhecido pelos fãs do esporte, que é quem vota no prêmio. Acredito que esse tipo de reconhecimento não tem preço para um atleta.

DA – Qual mensagem gostaria de mandar para os leitores da Dirt Action?
RV – Gostaria de pedir que continuem apoiando os brasileiros que competem no exterior, representando o nosso país. Há muitos pilotos levando a bandeira do Brasil que não têm conquistado a atenção do nosso público, até em virtude de haver poucas publicações que nos dedicam espaço nobre, como a Dirt Action. E quero também incentivá-los a praticar o nosso esporte que, além de divertido e emocionante, une as pessoas. A comunidade do rali é uma grande família, temos muito em comum e isso nos une nas corridas e em outras aventuras. Obrigado à revista por esse espaço maravilhoso. E aos fãs do esporte também agradeço, do fundo do coração, tanto carinho. A atenção de vocês só me faz amar ainda mais o rali. Obrigado mesmo!

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A matéria está disponível na edição de Junho/2020 da Revista Dirt Action.